sexta-feira, 27 de março de 2015

Falando sobre as decisões da Angelina Jolie

Oiê!
O assunto de hoje é sério, bem sério. Durante minha graduação, tive algumas aulas sobre genética do câncer e desde 2012 trabalho em um laboratório de biologia molecular do câncer, onde desenvolvi minha monografia e atualmente faço meu mestrado. Em ambos trabalhos o tema é a genética do câncer. Na graduação, trabalhei com câncer de cabeça e pescoço e hoje tento descobrir uma possível síndrome em uma família com mais de 10 casos de cânceres em diversos órgãos. Estou contanto isso porque quero falar um pouco sobre a nova declaração de que Angelina Jolie deu no último dia 24.
Angelina Jolie (foto)
No dia 14 de maio de 2013, a atriz escreveu para o New York Times (NYT) sobre uma escolha que ela havia feito. Ela resolveu falar publicamente sobre a dupla mastectomia (retirada total das mamas) que ela havia feito. Com um histórico de câncer de mama e ovário na família, Angelina resolveu investigar. Ao final, os médicos observaram que a atriz apresentava um defeito no gene BRCA1, um gene que pode aumentar a probabilidade dela desenvolver o câncer de mama (entre outros), eles definiram que o risco da Angelina desenvolver um câncer era de 87%. A decisão da atriz retirar as mamas foi a partir de seu histórico familiar, sua mãe faleceu cedo em decorrência de um câncer, bem como sua tia e avó, assim ela se submeteu à cirurgia com o objetivo de retirar todas as células mamárias de seu corpo, reduzindo as chances do câncer se desenvolver.

Passaram-se 2 anos e ela voltou ao NYT para contar sobre sua nova decisão: a retirada de seus ovários e trompas. Naquele mesmo exame, onde os médicos estimaram o risco dela desenvolver o câncer de mama, eles também estimaram o risco da atriz desenvolver câncer de ovário, que era de 50%. Ela já pensava na possibilidade, mas foi a partir do resultado de um exame de sangue que a fez decidir. O exame mostrou uma possível inflamação, que poderia indicar um estágio inicial de câncer que poderia não ser detectado por outros exames. Feitos os outros exames, nenhum detectou nada, mesmo assim ela resolveu prosseguir com a cirurgia. Durante o procedimento, os médicos encontraram um tumor benigno.
Angelina Jolie (foto)
Bom, essa foi a história da Angelina, mas eu estou aqui para contar um pouco sobre a genética do câncer, quero explicar alguns conceitos básicos que vão ajudar a entender a decisão da atriz e por que isso não é a cura do câncer.

Hoje já se sabe que o câncer é uma doença genética, sim, alterações em genes levam ao surgimento de um câncer, mas nem todo câncer é hereditário, ou seja, passa de pai para filho (ou avô para neto...). Apenas 10% de todos os casos de câncer são hereditários, mas como vou saber se é hereditário ou não? Umas das primeiras coisas que levantam a suspeita de um câncer hereditário é o fato de 3 ou mais pessoas de mesma família (avô, pai e irmão, por exemplo) serem diagnosticadas com câncer em idade jovem. Então essa família pode (e deve) procurar um geneticista para investigar as possíveis causas, como a Angelina fez. Se algum gene defeituoso for encontrado, mais exames são realizados e parentes que não tem a doença também devem fazer o teste, pois se for hereditário, mesmo sem a doença a pessoa irá apresentar o mesmo gene defeituoso.

E como funciona essa história de gene defeituoso? Já estou doente?
Meu professor da graduação deu um exemplo muito simples e bom para explicar. Os genes estão presentes aos pares (são dois alelos), assim como o carro tem um farol no lado direito e outro no esquerdo, certo?! Agora imagine duas situações:

1- Você está andando em uma estrada deserta, sem iluminação, você cuidou bem no seu fusquinha antigo e ele está com os dois faróis funcionando.

2- Você está andando na mesma estrada, mas você não cuidou muito bem do seu fusquinha, ele está com um dos faróis queimados.

É mais fácil queimar os dois faróis na situação 1 ou queimar apenas um farol na situação 2? A chance de você ficar no escuro na estradinha deserta é 50% maior na segunda situação do que na primeira.

Voltando para o corpo humano... No câncer hereditário, a pessoa nasce com um alelo mutado (1 farol queimado), logo a chance dessa pessoa desenvolver o câncer é maior do que uma pessoa que não nasceu com esse gene defeituoso. Como as situações não são tão exatas quanto um farol de carro, não podemos falar que a chance é 50% maior, ela vai depender de diversas variáveis. Esse é um exemplo bem simplificado. Lembrando que mesmo com a presença de um alelo mutado, a pessoa pode nunca desenvolver o câncer.
São dois alelos, formando um par (fonte)
Então a Angelina descobriu que tinha a mutação do gene e retirou os seios e os ovários como medida preventiva. Sim, o procedimento funciona, mas não é indicada para todos os casos, por isso uma conversa com um médico esclarecido no assunto é muito importante. Que fique claro, a retirada do órgão não quer dizer que a doença nunca vai se desenvolver, as chances diminuem muito, muito mesmo, mas se restou 1 célula da mama e ela se tornar defeituosa, o câncer pode aparecer. Além disso, exames periódicos de controle e prevenção ainda serão necessários.

Sempre busque profissionais que podem te ajudar, isso é um assunto sério, mas hoje há diversos tratamentos disponíveis. Exames preventivos são muito importantes, pois graças à eles muitos cânceres são diagnosticados precocemente e as chances de recuperação e cura são maiores. A pesquisa do câncer é cada vez maior e todos os dias descobrimos alguma coisinha nova, mecanismos diferentes que podem nos ajudar a encontrar métodos detecção precoce, tratamento adequado e cura.

O post de hoje é meio maçante, mas eu acho super importante e gosto muito de falar sobre o assunto. Vocês querem mais textos assim? Se ficou alguma dúvida, pergunta para mim nos comentários, vou tentar responder da melhor maneira possível!

Cuide-se, faça exames preventivos, leve uma vida saudável e seja feliz!

See Ya!

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